FAQ

Vida

Nascimento – Onde e quando Shakespeare nasceu? Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, em abril 1564. O dia exato é desconhecido; estima-se uma data entre 22 e 25 de abril. Sabemos que foi batizado na igreja de Holy Trinity (Santíssima Trindade) em uma quarta feira, dia 26 de abril. Sabemos que ele morreu em 23 de abril de 1616. Assim, é parte da mitologia sobre Shakespeare que ele tenha nascido e morrido no mesmo dia.

Quem são os pais do poeta? John e Mary (nascida Arden) eram seus pais. Eles se casaram em 1557 e tiveram duas filhas que morreram ainda bebê. Em 1564, nasceu William, o primeiro filho a sobreviver. A seguir, vieram Gilbert (1566), Joan (1569), Anne (1571), Richard (1574) e Edmund (1580). Anne morreu aos oito anos, mas todos os outros viveram até a idade adulta.

Qual a profissão do pai de Shakespeare? John Shakespeare era luveiro e comerciante de lã. Foi um homem que enriqueceu e ascendeu socialmente e foi indicado para postos cívicos importantes em sua cidade, ocupando em 1567o cargo de High Bailiff, o correspondente a prefeito da cidade. Posteriormente, John viveu tempos financeiramente difíceis.

Shakespeare se casou? Teve filhos?  Em 1582 Shakespeare se casa com Anne Hathaway; ele tinha 18 anos e ela 27. Anne estava grávida e seis meses depois, nasce a primeira filha do casal, Susanna. No ano seguinte, em 1585, nascem os gêmeos Judith e Hamnet. Hamnet morre aos onze anos, em 11 de agosto de 1596. A mortalidade infantil era alta naquela época e acredita- se que entre as possíveis causas da morte estejam difteria, sarampo ou febre escarlatina.

Há descendentes de Shakespeare hoje? Não. A filha mais velha, Susanna, casa-se com John Hall em 1607 e, no ano seguinte, eles têm uma filha, Elizabeth. Elizabeth se casa duas vezes: primeiro, com Thomas Nash, em 1626; depois com John Bernard, em 1649. Porém, não há filhos de nenhum dos casamentos. A segunda filha de Shakespeare, Judith, se casa com Thomas Quiney em 1616. O casal tem três filhos: Shakespeare Quiney, que morre na infância, e Richard e Thomas, ambos mortos no mesmo ano, em 1639, solteiros e sem deixar filhos. Deste modo, termina aqui a linha direta de descendentes de William Shakespeare.

Quando Shakespeare vai para Londres, sua esposa e filhos o acompanham? Não. É Shakespeare quem retorna de tempos em tempos à Stratford. Londres era o lugar onde ele trabalhava.

Como a peste afetou Shakespeare? A vida de Shakespeare foi marcada pela peste negra. Ele nasceu em meio a um surto,  quando 1/4 da população de Stratford pereceu. A peste já havia levado suas irmãs mais velhas, Joan e Margaret, ainda bebês. E levaria a irmã mais nova, Anne, aos sete anos, e o irmão Edmund, aos 27, e,  a mais devastadora perda,  seu único filho homem, Hamnet, aos onze anos.

A peste marcaria também a sua carreira, obrigando o fechamento dos teatros em 1593, 1603 e 1608. Shakespeare escreveria, então, os poemas e sonetos.

Nas mesmas paredes onde se pregavam anúncios chamando para as peças, também se anunciavam a proibição dos espetáculos.  Panfletos recomendavam apotecários e os mais diversos remédios: ervas, perfumes, amuletos, máscaras, uso de roupas limpas, lavar as mãos …

Qual era a causa da peste? Havia várias teorias sobre as causas da peste: o alinhamento dos planetas, miasmas (poluição no ar), a ira de Deus enviada para punir a maldade humana. Entre os sintomas estavam dores musculares, inchaço sob as axilas, braços, pernas e virilha, sono, febre alta, delírio, vômito e sangramento interno e externo. A morte chegava entre dois a quatro dias; poucos conseguiam sobreviver. A peste devastou a população da Europa nos séculos XIV e XV e continuou a assolar o continente até o século XVII.

Morte – Onde é o túmulo de Shakespeare? Ao se depararem com um bela escultura em mármore branco e em tamanho natural do poeta William Shakespeare, alguns visitantes à Abadia de Westminster, em Londres, pensam que ali está enterrado o poeta, ao lado de William Blake, Lord Byron, Charles Dickens, T. S. Eliot, John Keats e até de seu grande intérprete no século XX, o ator Sir Laurence Olivier. Mas a verdade é que no famoso Canto dos Poetas de Westminster está somente a estátua que homenageia Shakespeare. Seu túmulo permanece na cidade onde nasceu, dentro da pequena Igreja de Holy Trinity onde ele foi batizado perto do altar; há uma efígie do poeta, uma das únicas imagens comprovadamente de seu rosto, bem próxima ao túmulo. Na lápide do túmulo pode-se ler: “Bom amigo, pelo amor de Jesus, não cave o pó aqui enterrado: abençoado seja quem respeitar as pedras, e maldito o que mexer em meus ossos”.

Ilustrações

Que imagens ou ilustrações existem sobre as peças de Shakespeare? 

Existem quadros, gravuras e ilustrações para edições,  mais recentemente, fotografias com atores interpretando os papéis, enfim, uma grande quantidade de imagens sobre as peças. Uma das mais famosas é a pintura de John Everett Millais da personagem Ofélia.

Como seria a ilustração da carruagem da Rainha Mab, descrita tão poeticamente por Benvólio em Romeu e Julieta

Crianças, pintores amadores e renomados, muitos já tentaram capturar a essência do que seria a descrição de Mab. Aqui estão algumas ilustrações que podem nos ajudar a perceber a variedade de imagens que a célebre passagem evoca.

Sonhei que Mab, a rainha, o visitou.

 É a parteira das fadas e ela vinha

 Como uma ágata pequenininha

 No dedo indicador de um conselheiro.

 Puxada por um par de vermezinhos

 A correr no nariz do adormecido.

 Uma casca de noz é sua carruagem,

 Feita por um esquilo carpinteiro;

 Que sempre foi das fadas carreteiro.

 As varas são perninhas de uma aranha,

 Asas de gafanhoto sua cobertura;

 As rédeas vêm de teias pequeninas,

 E a canga, de résteas de luar.

 O seu chicote é um ossinho de grilo,

 Seu cocheiro, uma mosca varejeira cinza

 Que não é nem metade de uma larva

 Que uma donzela tira do dedinho;

 Assim cavalga ela pela noite

 E, atravessando o cérebro do amante,

 Faz nascerem ali sonhos de amor;

 Nos joelhos dos nobres, cortesias,

 Nos dedos do advogado, grandes ganhos;

 Os lábios das donzelas sonham beijos,

Mas Mab, zangada, faz nascerem bolhas

 Nos que encontra borrados por bombons.

 Se pesa no nariz de um cortesão,

 Ela sonha com o cheiro de favores;

 Às vezes passa o rabo de um leitão

 Pelo nariz de um cura adormecido,

 E o faz sonhar com mais uma prebenda.

 Se passa no pescoço de um soldado,

 Seu sonho é com a degola do inimigo,

 Ou com assaltos, aço e emboscadas,

 Ou mares de bebida; e, logo após,

 Toca tambor no ouvido, ele desperta

 Assustado, e, depois de uma oração ou duas,

Dorme de novo. É essa aquela Mab

 Que embaraça a crina dos cavalos

 E assa as carapinhas dos capetas

 Que, penteadas, trazem grandes males.

 É essa a velha que, se uma donzela

Adormece de costas, deita em cima

 E a ensina a arcar com um peso vivo,

Pra aprender a pesar com outras cargas.

 

Linguagem

 Quantas palavras Shakespeare escreveu? A obra completa em inglês consta de 884.647 palavras. Quantas peças ele escreveu? O número aceito é 38, porém há peças que têm autoria compartilhada como Eduardo III. E Sir Thomas More. possui um trecho curto da autoria de Shakespeare. Há também uma peça perdida, Cardenio. Qual a peça mais longa? Hamlet que possui 4.042 linhas. Qual a peça mais curta? A comédia dos erros , com 1.787 linhas.

Quanto há de verso e de prosa nas peças? A percentagem varia muito de peça para peça. Em português, são raras as traduções que acompanham o número de linhas e a proporção tal qual a edição em inglês (a referência é The RSC Shakespeare: The Complete Works, edit. Jonathan Bate e Eric Rasmussen , 2007).  Como exemplos destes dados nos textos em inglês:

Ricardo III –    3.887 linhas  Verso: 98%   Prosa: 2%   Ricardo: 32%
A comédia dos erros  – 1.918 linhas – Verso: 85%   Prosa 15%
Romeu e Julieta – 3.185  Verso:90% Prosa:10% Romeu:20% Julieta 18% Frei:11% Ama: 9%
Sonho de uma noite de verão (1595-6)  2.222 Verso: 80%  Prosa: 20%   Botton: 12% Teseus e Helena: 11% cada  Puck e Oberon: 10% cada
O mercador de Veneza (1596-7)   2.737 linhas Verso: 80%  Prosa: 20%   Pórcia: 22% Shylock e Bassanio: 13% cada  Gratiano, Antonio e Lorenzo: 7% cada
Muito barulho por nada (1598)  2.684  Verso 30%  Prosa 70%   Benedick 17% Beatriz 10%
Hamlet (1600-1601)  3.904 linhas    Verso 75%   Prosa 25%      Hamlet: 37%
Otelo (1603-4)  3.685 linhas  Verso: 80%   Prosa: 20%   Iago: 31% Otelo: 25%
Timon de Atenas (1605) linhas 2.607 Verso: 75% Prosa: 25% Timon: 34%
Rei Lear (1605-6; revisto 1610    3.301 linhas  Verso: 75%   Prosa: 25%   Lear: 22%
Macbeth (1606)    2.528 linhas  Verso: 95%   Prosa: 5%   Macbeth: 29%
A tempestade (1611) 2.341  Verso: 80%   Prosa 20%  Prospero: 30%   Ariel: 9% Caliban: 8%

Por que Shakespeare misturava tragédia e comédia, prosa e verso? Diferentemente do que aprendera na escola sobre manter separados os gêneros tragédia e comédia, a prosa e o verso, os personagens nobres e os homens comuns, como no mundo clássico, Shakespeare sabia que sua plateia era composta de pessoas de todas as classes sociais, nobres e gente comum que pagava apenas um penny para ficar em pé em volta do palco dos teatros públicos.

A música é uma linguagem de Shakespeare? Sim, a música é usada para dar informação sobre a peça, sobre tempo e espaço, na ausência de cenários.

A época de Shakespeare era uma época musical? Shakespeare era uma pessoa musical?Sim, a época e o poeta eram musicais. A vida dos elisabetanos era permeada de música, que era ensinada nas universidades e em casa como parte da educação, tanto o canto quanto os instrumentos. Shakespeare escreveu que não se deve confiar em quem não sabe apreciar a música:

O homem que não tem música dentro de si, nem tampouco é movido por doces sons, está apto a traições , estratagemas e despojos; os movimentos do seu espírito são maçantes como a noite e seus afetos escuros como Erebus: nenhum homem assim é confiável. (trad. livre)

(The man that hath no music in himself,
Nor is not moved with concord of sweet sounds,
Is fit for treasons, stratagems and spoils;
The motions of his spirit are dull as night
And his affections dark as Erebus:
Let no such man be trusted.  (Mercador, 5.1)

 

 Quais os instrumentos mais populares? O aláude, a flauta, a viola da gamba. Instrumentos de cordas, de sopro e de percussão.
 

Poderia citar passagens nas peças em que a música serve como metáfora? São muitas passagens em que a música aparece ligada ao amor, à harmonia, à sensibilidade, e em que o poder da música é curativo, restaurador.

Dê-me um pouco de música; música é comida para quem ama)
Give me some music; music, moody food
Of us that trade in love. (Antonio e Cleópatra, 2.5.1-2)

Se a música é o alimento do amor , toque, Dê-me música em excesso.(Noite de Reis)

A música das esferas ! ( The music of the spheres) (Péricles, 5.1)

De onde vem esta música ? Do ar ou da terra? (A tempestade, 1.2)

Não tenhas medo; a ilha é cheia de ruídos , sons e árias doces, que dão prazer e não machucam. (A tempestade, 3.2)

 

Como era a pronúncia do inglês de Shakespeare? Há um vídeo clip excelente para termos uma idéia do inglês shakespeariano, com o linguista David Crystal e o ator Ben Crystal: https://www.youtube.com/watch?v=gPlpphT7n9

Teatro no mundo

Quem foi o primeiro ator a interpretar os heróis de Shakespeare, como Hamlet, Macbeth, Lear e Otelo? Foi Richard Burbage, amigo, colega e sócio de Shakespeare no teatro e na companhia teatral . Shakespeare o tinha em mente quando criou seus persoangens. Burbage era o ator principal da companhia. Ele interpretou Hamlet em 1600 pela primeira vez e continuou interpretando o papel pelos próximos 18 anos até a sua morte.

 

Quem foi o primeiro ator negro a interpretar Otelo? O norte-americano Ira Aldridge, que, em 1833,  substituiu Edmund Kean que desfaleceu durante uma apresentação em Covent Garden, Londres.

Qual o ator que interpretou Otelo por mais tempo? Paul Robeson, nos palcos da Broadway. Na verdade, Robeson interpretou Otelo três vez: nos anos 30, quando ainda não era um ator muito experiente; depois, nos anos 40, na Broadway, com imenso sucesso; e em em meados dos anos 50, em Stratford.

Por que não se pode falar “Macbeth” antes de um espetáculo?  A superstição conta que Macbeth é uma palavra amaldiçoada, preferindo-se dizer ” a peça escocesa” e ” o lorde escocês). Os atores evitam falar a palavra Macbeth e citar as falas das Bruxas antes do espetáculo, exceto nos ensaios, é claro. Se por acaso o fizerem,  precisam sair do teatro,  rodar três vezes em volta do  corpo, cuspir por cima do ombro esquerdo, praguejar, dizer “Macbeth” três vezes,  e bater à porta para serem readmitidos ao teatro e assim, evitarem a má sorte.

Que  tipo de má sorte ou acidente traz a peça escocesa? São acidentes relacionados com as invocações das bruxas e com a opção pelo mal que faz o casal Macbeth. Conta-se que uma vez um punhal verdadeiro foi usado ao invés do punhal de teatro, ferindo o ator. Além disso, por ser uma peça que chama público, Macbeth é encenada por teatros em dificuldades financeiras, e que, muitas vezes, acabam falindo.

Qual a relação  do presidente Lincoln com a peça Macbeth? Abraham Lincoln costumava ler e reler Shakespeare. Não leu todas as peças, mas gostava de reler Lear, Hamlet, Ricardo III e, principalmente, Macbeth, sua favorita. Alguns dias antes de morrer assassinado, Lincoln conversava sobre literatura e sobre Shakespeare. Conta- se que leu a passagem sobre o assassinato do rei Duncan várias vezes, talvez uma premonição de sua própria sina.

Teatro no Brasil

Que atores já interpretaram Lear no Brasil? Sérgio Brito, dirigido por Celso Nunes, em 1983; Paulo Autran, dirigido por Ulysses Cruz, em 1996; Raul Cortez, dirigo por Ron Daniels, em 2000. Há ainda duas montagens que não estão bem documentadas, uma de 1994, dirigida por Giray Coutinho e com cenário de Lídia Kosovski, e outra de 1999-2001, com o título de Happy New Lear, com direção de Celina Sodré. Uma releitura da peça realizada no Brasil em 1999 teve como título e tema As filhas de Lear.

 

 

 

Quantas vezes Macbeth foi montada no Brasil? A peça escocesa é uma favorita dos brasileiros. Montada mais de vinte vezes por atores profissionais, em 1949 com a direção de Esther Leão e em 19662, com direção de Alfredo Mesquita.  Em 1992, foram realizadas duas montagens importantes: Ulysses Cruz dirige Antônio Fagundes no papel-título e Antunes Filho dirige Luis Melo em uma leitura marcada, desde o título,  pelo filme de Kurosawa.   E em 2013 Marcelo Antony interpreta o papel título na direção de Gabriel Vilela.

Crítica

O que significa o nome Iago? Iago se refere a São Tiago ou Saint James, o santo protetor dos exércitos na Espanha do século X, que ajudou a exterminar os mouros. Iago tem, portanto, a implicação de ódio aos mouros. 

Qual a motivação de Iago? Inveja? Ciúme ou vingança porque suspeita que Otelo e Cássio andaram por seus lençóis? Ou Iago deseja Desdêmona? Ou, ainda, simplemesnte, quer o posto de Cássio? Shakespeare apresenta motivações em excesso e todas encontram linhas correspondentes na peça.  Coleridge interpreta Iago  como  “malignidade sem razão”; W. H. Auden o interpretou  como um vazio, uma nulidade, a negação, quando ele diz: I am not what I am ( Eu não sou o que sou).  Cada ator precisa decidir que linha seguir, que motivação escolher, que história prévia escolher.

Qual o papel mais importante da peça: o de Iago ou o de Otelo? No teatro, durante os séculos XVIII e XIX, o grande papel foi sempre o do mouro Otelo, representado por Garrick, Kemble or Kean. No século XX, exceto pela histórica montagem de Laurence Olivier, o foco das atenções tornou-se Iago, que foi interpretado por Kenneth Branagh e Ian Mckellen, por exemplo. No Brasil, Diogo Vilela preferiu interpretar Iago em sua montagem.

Qual é a estratégia de Iago para fazer Otelo suspeitar de Desdêmona? Otelo desde os sete anos vive como um militar  e só sabe lidar com fatos; Iago planta em seu espírito dúvidas, e Otelo não consegue dar conta das dúvidas e acaba por agir precipitadamente.

Otelo, o mouro de Veneza: o título já não contém uma oposição, um oxímoro, ou mesmo, uma contradição? Sim, mouros não são de Veneza, mas do norte da África ou do mundo árabe.  A peça é cheia de oposições: a sociedade sofisticada veneziana X a cultura dos mouros bárbaros; brancos X negros;  jovens X velhos.

Diz- se que Iago é um grande improvisador… Ele vai agindo e reagindo a medida que os outros personagens reagem às suas ações. Iago é uma espécie de dramaturgo ou diretor mas ele não tem o controle sobre as ações dos personagens. Ele não parece ter um plano pronto, mas vai improvisando.

Iago coloca a ação da peça em movimento; como é isso? Iago instiga a ação, os outros personagens tornam- se suas vítimas. A peça começa com Iago instigando Roderigo a acordar Brabantio e lhe contar que Desdemona fugiu com o mouro. Depois, Iago faz Cássio beber e brigar e perder seu posto. Também faz sua esposa roubar e lhe dar o lenço de Desdemona. E ainda provoca a briga entre Roderigo e Cássio, em que o primeiro morre.

Por que os personagens de Shakespeare nos fascinam? Shakespeare desenhou com maestria a interioridade  e a psicologia dos personagens. Ele os criou com verdade emocional. E por isso, tanos as plateias quanto os próprios atores retornam às suas peças com interesse renovado.

Filmes

Por que se diz que Shakespeare é o maior roteirista de todos os tempos?  Shakespeare viveu no século XVI e XVII e o cinema é uma arte do século XX, mas apenas entre 1896 e 1929 foram mais de 400 os filmes mudos que se voltaram para as peças do bardo. Só isso torna Shakespeare o maior roteirista de todos os tempos! 

 

 

Quando foi realizado o primeiro filme shakespeariano? Quatro anos após a primeira exibição dos Irmãos Lumière, em 20 de setembro de 1899, Londres assiste uma dupla estréia, nos palcos e na tela, de Rei João, protagonizado por Sir Herbert Beerbohm Tree. O  filme se compõe de quatro cenas gravadas com uma câmera fixa em um estúdio ao ar livre, perto das margens do Tâmisa. O evento é histórico e  marca o início do diálogo entre Shakespeare e o cinema.

Quais os primeiros filmes mudos de maior interesse? Destacam-se as que eternizaram renomados atores: Hamlet (1900), com Sarah Bernhardt, no papel de príncipe ─ aliás, o début da diva no cinema; Noite de reis (EUA, 1910), com Charles Kent;  Ricardo III (1911), com Sir Frank Benson;  Rei Lear (1916), com Frederick B. Warde; e Hamlet (1913), com Johnston Forbes-Robertson.

 

Mas, sem dúvida, o mais notável foi o longa-metragem dinamarquês Hamlet, drama de vingança (1929), dirigido por Svend Gade e protagonizado por Asta Nielsen (1881-1972), a primeira grande estrela internacional do cinema, cultuada por divas como Greta Garbo e Marlene Dietrich

 

Qual foi o primeiro filme shakespeareano falado? O casal mais famoso de Hollywood, Mary Pickford e Douglas Fairbanks, filmam A megera domada em 1929, um longa-metragem adaptado de Shakespeare e que alcançou sucesso financeiro e de público. O filme é lançado em duas versões – muda e com som – porque muitas salas de cinema ainda não possuem recursos de áudio.

 

A década de 1930, conhecida como os anos dourados de Hollywood, teve algum filmes shakespeariano importante? Dois foram espetáculos visuais inesquecíveis: Sonho de uma noite de verão (1935), de Max Reinhardt e William Dieterle, e Romeu e Julieta (1936), de Irving Thalberg. Os dois,  entretanto, fracassam comercialmente e levam o diretor da MGM, Louis B. Mayer, a dizer que Shakespeare era um “veneno para as bilheterias”.  O bardo é, então, abandonado por Hollywood, e precisará esperar por um verdadeiro monarca, Sir Laurence Olivier para renascer no cinema.

O nome de Olivier se  confunde com o de Shakespeare no século XX. Quais foram suas grandes produções no cinema?  Em 1944, estreia com Henrique V, e  prova que as peças podem ser adaptadas com sucesso para as telas. Faz ainda um Hamlet noir em 1948 e um Ricardo III espetacular, em 1955, com um elenco estrelar ─ Ralph Richardson e John Gielgud.

 

E a televisão? Estes filmes são veiculados na televisão norte-americana e atingem mais de 25 milhões de espectadores, revertendo o preconceito contra a adaptação das peças no cinema. Olivier faz também  Otelo , em 1965, O mercador de Veneza, em 1973 e  Rei Lear , em 1983, quando já esteja muito doente e de certa forma vivia um pouco os problemas de Lear.

 

Mas Olivier não era, primordialmente, um homem de teatro?Sim. Ele teve muita resistência em aceitar o convite para fazer Shakespeare no cinema. Acreditava que a  linguagem poética de Shakespeare não era apropriada para a cinema, meio eminentemente visual. E por isso mesmo quando ele resolve fazer Shakespeare no cinema, seu exemplo encoraja cineastas a enfrentar o desafio de adaptar um grande poeta.

Como Hollywood adapta Shakespeare nos anos 50?Adapta é a palavra certa. Hollywood produz um épico e dois musicais: Dá-me um beijo (1953), baseado em A megera domada e com música de Cole Porter; Amor, sublime amor (1961), versão de Romeu e Julieta ambientada em Nova Iorque, com música de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim; e Júlio César, (1953), dirigido por Joseph Mankiewicz e com um time de estrelas como Marlon Brando, James Mason e Deborah Kerr. Apesar da qualidade e do sucesso dos filmes, para os padrões de Hollywood, o retorno financeiro é  modesto de modo que Shakespeare é novamente esquecido pelo cinema americano.

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